Amadores Teatrais. O cronista Rubem Gil, do Rio de Janeiro, assim se expressou em "A nação" em 1936: "Reuniu-se no Recife o Primeiro Congresso de Amadores Teatrais. É uma novidade, talvez mundial, e sem dúvida interessantíssima. No caso de que se reúna na capital pernambucana está uma das razões do interesse desse Congresso, pois o teatro de amadores tem em Pernambuco o seu grande fastígio. O Grupo Gente Nossa, por exemplo, é alguma coisa de realmente notável e as realizações dos amadores que o compõem constituem, pela sua repercussão em todo o país, o incentivo maior à arte de representar no Brasil. Em verdade, no Grupo Gente Nossa há possibilidade de aparecer e evoluir um artista como raramente poderá suceder em
A década de 30, sem dúvida alguma, é ponto de partida de todos os movimentos teatrais no Recife, com repercussão em todas as cidades do nordeste e do próprio Brasil. O Recife, pioneiro em tantos outros acontecimentos políticos e sociais, pode se orgulhar de ter sido palco pioneiro do bom teatro, do teatro limpo, digno, onde Samuel Campelo exigia "honestidade nas representações, combate aos erros e vícios, respeito ao público e à obra alheia. Não admito enxertar coisas disparatadas, apalhaçar cenas, avacalhar as peças e as representações, deturpar o trabalho de um escritor, levar o público ao ridículo. O artista deve também prezar o seu nome e não fazer coisas semelhantes. Representem como se eu estivesse presente, pois ser-me-ia mais um desgosto ver os artistas fazerem em cena o que tanto condeno pelo bem que quero ao teatro.". Esta "tabela" fixada no quadro dos bastidores do palco é um retrato sem retoque de Samuel Campelo. Valdemar de Oliveira a reproduz em seu "Mundo Submerso" quando afirma: "Em sua escola me formei. Aprendi a respeitar, sob todos os aspectos, o Teatro, como arte dramática, como escola de inteligência e caráter, como prática humilde de respeito e submissão". O Recife foi escola de teatro na década de 30. Aqui se realizou o Primeiro Congresso de
alguma das organizações profissionais, devidamente empresadas (...) Por todos os motivos, o Congresso de Amadores do Recife reclama desde já a atenção dos homens de boa vontade (...) para com o Teatro". Desse Congresso, realizado em março de 1936, nasceu a idéia da criação da Confederação Teatral Pernambucana, que deveria tomar corpo quando da chegada ao Recife, em junho, do Prof. Miguel Josseli, idealizador e presidente da Sociedade de Cultura de Garanhuns. Fervilhava o movimento teatral no Recife e era evidente a necessidade de novos teatros para atender aos "amadores" e aos profissionais aqui existentes. No mês de junho de 1933 o Grupo Gente Nossa montou nada mais, nada menos do que 17 peças, todas de autores Pernambucanos. Assim o Recife assistiu a "Um rapaz de Posição" de Valdemar de Oliveira, "Variações do Verbo Amar" de Samuel Campelo, "O Bom Ladrão" de Lucilo Varejão, "Tão Fácil a Felicidade" de Valdemar de Oliveira, "Rosa Vermelha" opereta de Samuel Campelo e Valdemar de Oliveira, "Coração de Violeiro" opereta dos Irmãos Raul e João Valença, "Que Loucura, Leonor" de Filgueira Filho, "Lampião vem aí" de Eustorgio Wanderlei, "Madame Pirulito" opereta de Umberto Santiago e Sérgio Sobreira, "Eu não sou eu" de Silvino Lopes, "Última Noite" de Eustorgio Wanderlei, "O Assustado" de Augusto Vanderlei e com música de Gaspar Moura, "Luar do Norte" de Umberto Santiago com músicas de João Valença, "A Honra da Tia" de Samuel Campelo, "Noites de Novena" de Samuel Campelo e João Valença". Foram, como se vê, 14 autores Pernambucanos levados à cena no Teatro Santa Isabel e no Teatro da Paz em Afogados, além de grupos que visitavam nossa cidade sabedores de ter, no Recife, uma forte demanda de público. A tudo Valdemar de Oliveira assistia, aplaudia,
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estudava. Viu o movimento do "Tuna Portuguêsa" lutando para comprar um prédio grande onde localizaria o seu teatro, ora funcionando precariamente na Rua do Imperador. Acompanhou a época em que todos aguardavam a aprovação do plano de remodelação do bairro de Santo Antônio para ali ser fixado, pelo Governo Municipal, o local onde seria edificado o "Nosso Teatro", por iniciativa do Grupo Gente Nossa. O nome do teatro era o desejo de Samuel Campelo que Valdemar de Oliveira soube preservar quando construiu o Teatro para o Teatro de Amadores de Pernambuco. As obras do Teatro Santa Isabel iriam terminar em julho e já se esperava uma festa de reabertura organizada pelo Rotary Club Recife no dia 8, antecipando a grande festa de arte promovida pela Sociedade de Cultura Musical, em conjunto com a Radio Clube de Pernambuco, Associação dos Amigos de Arte, Conservatório Pernambucano de Música e todas as Bandas de Música e orfeões da Brigado Militar do Estado, com o apoio decidido do Prefeito Dr. Pereira Borges, para que as comemorações do centenário de Carlos Gomes fossem realmente um acontecimento marcante no cenário cultural da cidade. Em tudo isso participava e colaborava Valdemar de Oliveira, bebericando conhecimento para seu grande sonho. Sempre ao lado de Samuel Campelo, com quem mantinha "conferências secretas" em sua casa na Rua Imperial, onde traçavam planos, estudavam peças, reviam textos e comportamentos de alguns desajustados do grupo, ajustavam partituras, abraçavam novas parcerias, enfim, um convívio sadio e amigo que o levou a afirmar: "Conhecendo-o em todo o maciço de sua personalidade, recebi-o na Academia Pernambucana de Letras, e nela lhe fiz o seu necrológio, recortando, em corpo inteiro, o bravo perfil de lutador que, durante toda uma década, a de 30 (menos o último ano) arrancou, dos porões do Santa Isabel, a 'caveira de burro' que lá diziam enterrada, encarreirando novamente o público para o teatro, estabelecendo 'preço de cinema', na bilheteria, realizando a façanha de montar uma peça por semana para manter o corpo de sócios que sustentava a 'caixa', incentivando a literatura teatral em numerosos setores de nossa vida intelectual".
AA década de 30 teve início com a revolução e foi no auge da turbulência que surgiu o convite a Samuel Campelo para dirigir o Teatro de Santa Isabel. Vendo a possibilidade de realizar o seu sonho, nascido de uma conversa com Elpídio Câmara, de fazer teatro num plano elevado de reabilitação da arte, aceitou a nova tarefa. Tinha ele agora a faca e o queijo nas mãos e a manutenção do teatro estaria resolvida com a utilização de seu palco pelos novos grupos da cidade, esquecendo-se de vez com as cansativas visitas aos proprietários de cinemas mais ou menos ambiciosos. E o sonho rapidamente se realizou. No dia 2 de agosto de 1931 pisou o palco do Teatro de Santa Isabel o Grupo Gente Nossa, levando à cena "A honra da Tia" de sua autoria, sonho que se transformou em tormentosa atividade artística sintetizada em editorial do Jornal do Commércio 4 anos depois. "Consultem-se as estatísticas: foi após a fundação do Grupo Gente Nossa que aumentou extraordinariamente o numero de espetáculos teatrais no Recife, quiçá em Pernambuco. Foi ele quem encarreirou
novamente o público para o Teatro Santa Isabel. Ele quem logrou atingir com algumas de suas peças um número de apresentações nunca atingido em qualquer tempo em nossos teatros. Observem-se as estatísticas do imposto de caridade depois da fundação do grupo. Eles exprimiram, ao mesmo tempo, o favor publico e a vantagem humanitária desse grêmio artístico. Examine-se o repertório que ele levantou no Recife e ali se há de ver o grande número de originais pernambucanos representados em primeira mão, de onde se avaliará o estímulo que a produção literária teatral trouxe à existência do grupo”.E continua o editorial mostrando os efeitos benéficos do trabalho desenvolvido por Samuel Campelo e seu Grupo, criando em todo Estado novos grupos de teatro, das oportunidades surgidas de novos emprego aos músicos, artistas, cenógrafos, além dos direitos autorais sempre respeitados pelo grupo. Enfatiza aspecto importante e curioso, pois foi o Grupo Gente Nossa que tornou acessível o ingresso do povo ao Teatro Santa Isabel, anteriormente freqüentado unicamente pela sociedade rica e portentosa. No último ano da década de 30, cansado, doente, ainda escreveu "Mulato" e "S.O.S". A primeira ainda foi representada. A segunda, vetada pela Censura do Estado Novo, lhe apressou a morte. Lutou até as vésperas de morrer, embora dissesse que, para ele, com semelhante proibição, o teatro acabara. No fim de sua vida viu-se cercado de ingratidões,
Valdemar e Diná
Fachada do Nosso Teatro
mal compensado de tanto esforço e abnegação, negado, caluniado e atingido em pleno coração naquilo em que mais amou. O teatro passou a ser o alvo preferido dos seus inimigos, despeitados, covardes, vindo a sofrer, em sua própria terra, a maldição de torpes campanhas. Valdemar de Oliveira esteve com ele até o final, dele ouvindo, em seu leito de morte, em seu último ato: - "O Grupo há de voltar.. " "Ele é que não voltou mais", lembra Valdemar. A verdade é que o seu verdadeiro teatro, aquele que ele tanto amou, aquele que ele procurou ensinar a quem queria aprender, aquele da "tabela" fixada no quadro de aviso do Teatro, voltou. Voltou com outro nome: Teatro de Amadores de Pernambuco, filho do seu Grupo Gente Nossa, criado durante muitos anos junto ao seu, até que se tornou independente, livre, traçando o seu próprio caminho, sempre guiado pelas luzes dos seus ensinamentos. E, em sua trajetória vitoriosa, depois de anos, passou a ter a sua própria tenda, a que chamou de "Nosso Teatro", nome em que Samuel Campelo sonhava agasalhar os seus sonhos.

Fernando de Oliveira