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suspeitas, a arte baixa. As nossas mocinhas, portanto, tinham permissão para se exibirem, no palco, como se exibem nas praias. Aplaudia-se, com calor, a praga das declamadoras. E nada era mais recomendável do que subir ao tablado do Santa Isabel para tocar um instrumento qualquer. Teatro, não e não.
Um dia Otávio de Freitas me procurou para organizar um concerto de gala em solenização ao centenário da Sociedade de Medicina de Pernambuco. A minha resposta foi que, em-vez-de um concerto, se desse uma represen- tação teatral.
A idéia sorriu ao mestre querido.

“Era curioso o que acontecia, no Recife, até bem pouco tempo: a alta sociedade pisava o palco do Teatro Santa Isabel para se exibir de todos os modos, menos fazendo Teatro. Pisava-o para fazer parte em concertos e recitais; pisava-o para bailar; pisava-o para declamar; pisava-o para cantar. Em benefício próprio. Em festas de caridade. Solistas. Corpos corais. Conjuntos sinfônicos. Tertúlias intelectuais. Tudo, menos Teatro”.
Em 1925, houve uma exceção: a opereta "Berenice" conseguiu reunir grande número de elementos sociais que se apresentaram no Teatro Santa Isabel, em favor da Maternidade da Cruz Vermelha Pernambucana. Foi um acontecimento. Durante muito tempo não se falou em outra coisa. Surgiram, até, os perfumes "Berenice", os tecidos "Berenice", E muita pirralha daquela época tomou o nome de "Berenice". O sucesso foi extraordinário. E o prejuízo também, porque mais de cinqüenta contos de réis foram investidos na montagem. Desde então, o amadorismo teatral desapareceu da nossa crônica artística. Autor pernambucano quis, certa vez, reunir novos elementos pra a representação de uma comédia. Os ensaios chegaram a começar, mas, não foram adiante.
elenco de Berenice - "o que deu para reunir numa tarde".
nossa melhor sociedade admitia tudo, todas as formas de arte, menos a arte de representar. Perigosa? Inútil? Deprimente? Ninguém sabe. Talvez arte inferior, bitolada, pelas chanchadas que companhias do Sul nos ofereciam, de vez em quando. Isso de amadorismo teatral ficava para os grêmios de subúrbio, a rapaziada da classe média, os portugueses da Tuna, ensaiados por algum velho ator aposentado e pobre. Para os mais ferrenhos inimigos do Teatro, cantores, pianistas, declamadores, eram gente direita, que se podia imitar, sem desaire. Atores e atrizes, não: os homens não tinham classificação social, as mulheres eram
elenco de Dr. Knock
secretariava o Sindicato Médico, acabou de integrar o conjunto. Não é preciso dizer que houve recusas, muito compreensíveis: colegas que entendem a profissão incompatível com certas coisas, embora com outras não.
A peça foi lida, uma noite na casa de Otávio de Freitas, para um grupo de médicos. Alguns a desaprovaram, é claro, Nenhuma peça levantou jamais tantas divergências como "Knock" . Mas, a maioria concordou. Realizaram-se os ensaios. E no dia 4 de abril de 1941, o velário se abriu a primeira cena do original de Jules Romains, diante de uma casa esgotada. Estava fundado, praticamente, o Teatro de Amadores de Pernambuco. O sucesso foi absoluto. A peça teve de ser repetida, para novos aplausos.
Terreno bom, semente boa e bem lançada, teria de germinar, facilmente. Algumas semanas mais tarde, esses elementos e
mais outros, seduzidos pelo êxito inicial, representaram "Primerose", a que se seguiu, tempos depois, "Uma mulher sem importância", de Oscar Wilde e, por fim, já em outubro, "O processo de Mary Dugan", de Bayard Weller. A cada peça novos elementos surgiam. Não foi possível, mesmo, atender a todos. Vinte e oito figuras compuseram o elenco da última peça. O grupo Cênico Espinheirense forneceu numerosos deles: Denise Albuquerque, Neli Rabelo, Hélio Tavares, Augusto Almeida, Coelho de Almeida e senhora. Vieram advogados, como Craveiro Leite, bacharelandos como Albérico Glasner, comerciários como Alderico Costa, senhorinhas da melhor sociedade, com Geninha Sá, bancários, como Adhelmar de Oliveira, altos funcionários federal, como Pinheiro Dias, delegado regional do Trabalho e sua senhora, acadêmicos como José de Queiroz, Vanildo Bezerra, Dédrano Lima. E outros e outros.
1941 - Primerose
1941 - Uma Mulher sem Importância
1941 - O Processo de Mary Dugan
Êxito artístico, êxito social, êxito mundano, êxito financeiro. Cada peça repetida três, quatro, cinco vezes, até seis. Em dezembro, organizou-se, sob os auspícios dos governos de Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará, uma excursão a esses dois últimos Estados. E, em cada um deles, o mesmo sucesso. Encerrou-se o ano de 1941, com um total de 23 espetáculos, com quatro peças, apenas todas elas de bom Teatro, sem transigência com o grosso público, sem contemporizações com as chanchadas. Estranham algumas pessoas de boa fé, que, ao título de - "Teatro de Amadores de Pernambuco" - se tivesse ajuntado o subtítulo _ "Departamento Autônomo do Grupo Gente Nossa". De fato, foi o material e foi o pessoal técnico do Grupo que possibilitaram a existência do Teatro de Amadores. Foi, ainda, o clima criado pelo antigo conjunto local, em favor da arte teatral no Recife. Foram o exemplo e o idealismo de Samuel Campelo, projetados sobre o futuro do Teatro pernambucano. Foi, por fim, o capital financeiro que não só socorria às despesas de emergência e ao custeio das
elenco de Berenice com Valdemar - Coloração original da fotografia.
- E a peça? Inquiriu.
- "Knock" ou " O triunfo da medicina" , de Jules Romains!
Uma cópia do grande trabalho do moderno Teatro Francês me havia sido dada por Arsênio Tavares. Guardava-a com carinho, à espera de uma oportunidade. Esta chegara. Não havia hesitar.
- E os "atores"? E as "atrizes"?
- Procura-se.
Eu sabia que eles existiam. E propus logo, que somente médicos e senhoras de médicos tomassem parte no espetáculo. Quais seriam esses que se aventurariam à tamanha empresa, tal a de arrostar com o tremendo preconceito do palco? Inscrevi-me em primeiro lugar, com minha senhora. E, em segundo, coloquei o nome do meu irmão Walter e o do Dr. Coelho de Almeida. José Carlos Cavalcanti Borges veio em quarto lugar. Já se dispusera a tomar parte na representação de "Zé Mariano", que o Grupo Gente Nossa levara, meses antes, à cena. Estaria pronto. Filgueira Filho foi outro nome certo: já andara representando, com o pessoal do grupo, cego e surdo a todo o mal que dele quisessem dizer. Agenor Bonfim, ouvido, aderiu com sua senhora. José Pandolfi consentiu em que sua esposa também aparecesse. E Leduar de Assis Rocha, que
Foto do 6º aniversário do Grupo Gente Nossa
montagens (o caixa do CGN, pagou, em moeda corrente, todo o material de cena que, dos espetáculos do Teatro de Amadores, lhe ficou pertencendo), mas, também, ao pagamento do pessoal fixo que constitui a secretaria, o arquivo, a contra-regra, etc, do Grupo. Como o Teatro Infantil, o Teatro de Amadores ficou constituído um departamento do Grupo Gente Nossa, independente

do elenco profissional. O vocábulo "autônomo" não está, aliais, muito bem empregado. É certo que as rendas do Teatro de Amadores não beneficiam o Grupo Gente Nossa; mas, é igualmente certo que as verbas do Grupo Gente Nossa são aplicadas, em boa parte ao Teatro de Amadores. Há, em verdade, uma autonomia financeira: a favor do Teatro de Amadores, "contra" o Grupo Gente Nossa. Esse folheto de publicidade, por exemplo, é custeado pela tesouraria do Grupo Gente Nossa. Eis uma informação útil. Deixei para o fim o aspecto mais nobre desse Teatro de Amadores: a renda líquida da totalidade dos seus espetáculos reverteu em benefício de instituições sociais do Recife, de Natal e de Fortaleza, contempladas, em nossa capital, a Sociedade de Medicina, a Maternidade do Hospital Pedro II, o Abrigo do Cristo Redentor, Instituto dos cegos e a Caixa Escolar da Escola Normal Pinto Júnior. Permitam-me terminar com uma cifra: feitas as contas - todas elas controladas pelos tesoureiros dessas instituições e das de Natal e Fortaleza - distribuiu o Teatro de Amadores de Pernambuco, em 1941, sem nada recolher aos seus próprios cofres, importância superior a cincoenta contos de reis. Para que não haja dúvidas sobre a exatidão do informe, aqui temos a cifra total: 50:835$900. Hoje, as primeiras representações do Teatro de Amadores são casas disputadas. O número de elementos desejosos de tomar parte nos espetáculos aumenta sempre, não sendo possível contentar a todos. Os originais programados para 1942 são de mais severo escolha, vencida a fase de conquista do público, preparada para aceitar peças do grande Teatro universal. O trabalho de reabilitação do teatro, como arte de eleição, prossegue, sob o mesmo clima de idealismo e de atividade intelectual superior. Governo, imprensa, público, solidarizam-se, entusiasticamente, com a iniciativa. E só com um elemento não conta o Teatro de Amadores: com o Serviço Nacional de Teatro”.

VALDEMAR DE OLIVEIRA

orgulhosamente, e verificar que já encenou 111 originais, já beneficiou mais de 100 instituições sociais, já construiu um Teatro próprio (hoje Teatro Valdemar de Oliveira) com 400 lugares, já realizou 54 excursões em mais de 28 cidades do Brasil, plantando em cada uma a semente do bom e honesto teatro. E se tudo isso não bastasse, volta o olhar ao seu passado e traz de volta o Teatro Infantil de Pernambuco, realizando um espetáculo envolvendo 106 crianças que pela primeira vez pisam num palco de um teatro. E para quem tem 60 anos de vida já é bom pensar em seus continuadores. Assim pensando, estamos criando a primeira Escola de Teatro Infantil, utilizando não só o seu teatro como local de trabalho, mas, o que de muito significante tem, a própria residência onde Valdemar de Oliveira e sua Diná fizeram seu feliz ninho e souberam fazer dos seus sonhos o sonho de muitos outros.

Fernando de Oliveira

Aulas de Teatro na casa de Valdemar


O curioso de tudo isso é que, passados 63 anos de vida, com uma incrível vitalidade, sem deixar um ano sequer de oferecer ao seu público seus esperados espetáculos, o TEATRO DE AMADORES DE PERNAMBUCO, continua como em 1941 e 1942, selecionando, severamente seus originais, conquistando mais público, com o mesmo clima de entusiasmo, acrescentando sempre novos elementos ao seu elenco, hoje ultrapassando a casa dos 800 Atores e Atrizes e podendo olhar para trás,
Nada mais interessante, curioso e verdadeiro - no sentido da pintura e do sentimento de nossa gente, no início da década de 40, quando o Teatro de Amadores de Pernambuco deu seus primeiros passos - do que o artigo do próprio Valdemar de Oliveira, seu criador, publicado na primeira plaqueta sobre o TAP, referente aos anos de 1941 a 1942, com o título "UMA CONQUISTA DIFÍCIL". Nele se encontram as razões, os compromissos, os sonhos expostos de maneira franca e objetiva, e que hoje, decorridos 63 anos, se constituem em valioso documento que serve para compreender, conhecer, julgar, aferir, meditar, ponderar, e principalmente acreditar, que, nos dias de hoje, tão corrompidos e envolvidos com cifras, possa existir uma instituição viva e pulsante a fazer Teatro com "T" maiúsculo, onde os interesses financeiros não encontram guarida e são substituído pelo amor puro e simples daqueles que a arte atingiu com o seu terrível e bendito vírus. Vale a pena conferir.