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Primerose
De:Robert de Flers e Gaston de Caillavet

Registre-se aqui um fato que suscita, não dúvidas, porem especulações. Que peça deve ser considerada como a primeira do Teatro de Amadores de Pernambuco. Se "Dr. Knock" ou "Primerose"? Alegam alguns que "Dr. Knock" foi um atendimento a um convide do Dr. Otavio de Freitas para um espetáculo "em solenização ao primeiro centenário da Sociedade de Medicina de Pernambuco, no Teatro Santa Isabel, na noite de 5 de abril de 1941, às 21 horas" como consta do programa e não uma estréia "oficial" de um grupo de Teatro. Por outro lado nunca se registrou, em nenhum documento a afirmação de que "Primerose" tenha sido considerada a primeira. Pelo contrário, todos os outros programas (inclusive o de Primerose), artigos, plaquetas, jornais, anúncios, gravações, são unânimes em considerar "Dr. Knock" a primeira e não poderia deixar de ser. Uma e outra foram encenadas no mesmo ano, com uma diferença de 68 dias apenas. Valdemar de Oliveira em maio de 1941, no Jornal do Commercio, assim se pronuncia: "...depois de o "Dr. Knock", fizemos, em conjunto, a leitura de diversos originais, escolhemos de início "Oriente e Ocidente", de Somerset Maughan. Razões de ordem superior nos fizeram reservar essa grande peça para um dos futuros espetáculos, decidindo-nos finalmente, pela deliciosa comédia "Primerose" do arquivo francês". Escreve "fizemos", "em conjunto", "depois de Dr Knock" e se não bastasse, são tantas outras razões e afirmações, que, nesse trabalho, é considerada a peça Dr. Knock como a 001/1941. E afinal, "Primerose" só aconteceu porque 'Dr. Knock" acontecera. É filha portanto. E não se tem conhecimento de filha mais velha de que a mãe. O importante, como registro, em "Primerose" e a estréia da senhorita Geninha Sá (Geninha da Rosa Borges) no papel principal de "Primerose" e Alderico Costa no papel do Visconde Layrac, dois elementos que se constituíram exemplos de dedicação e amor à causa do Teatro, no Recife. Quando a peça, as críticas e os comentários, falam mais alto.


ELENCO ORIGINAL: (Ordem alfabética)

Albérico Glasner* Samuel Davi
Alderico Costa* Visconde de Layrac
Augusto Almeida* Denis
Carlos Roberto Edmundo
Coelho de Almeida Conde Plénan
Creuza de Andrade Lima* Figurante
Dédrano Lima* Figurante
Diná de Oliveira Condessa Sermaize
Edith Glasner* Baronesa de Montureux
Ferreyra dos Santos* Dr. Fardin
Geninha Sá* Primerose
Hélio Tavares* Barão de Montureux
Hilda Santos* Figurante
Ivone Cavalcanti Borges Donatiana
José Carlos Cavalcanti Borges Cardeal de Mérance
Ladyclaire de Oliveira Sra. de Champvernier
Maria de Lurdes Cavalcanti Borges* Viscondessa de Plélan
Maria Elisa Coelho de Almeida* Madame Starini
Menaris Ribeiro* Figurante
Nelí Rabelo* Sra. de Jeanvry
Valdemar de Oliveira Paulo de Lancrey
Valter de Oliveira Umberto de Plélan
* Estreando no Teatro de Amadores de Pernambuco.


Cenários: Confeccionados pelos maquinistas José de Barros e João Alves.
Contra regra: Francisco Miranda
Ponto: Abelardo Cavalcanti ( Coleguinha )
Assistente do diretor de cena: Osvaldo Barreto
Entidade beneficiada: Maternidade do Hospital Pedro II - Escola Normal Pinto Júnior.


CRÍTICAS: "Outrora, pisar, uma senhora, no palco, era motivo para quebra de preconceito. Ir homem casado a um camarim constituía causa justa para um amuo conjugal e até separação de casais. E o que vemos agora, no Recife, é a dignificarão do teatro. Um conjunto de amadores da mais elevada representação social a interpretar peças de responsabilidade e a empolgar a platéia, acostumada a aplaudir profissionais de alto coturno. E como coroação de tudo, os produtos dos espetáculos aplicados em obras sociais. Samuel Campelo cavou os alicerces e Valdemar de Oliveira está edificando".
Mário Melo

"Primerose" foi o que se pode chamar, sem benevolência, uma peça primorosa. Foi, na minha opinião, o melhor espetáculo de arte já realizado, entre nós, por amadores, direi mais: nenhuma companhia das que ultimamente tem vindo ao Recife, conseguiu dar-nos uma noite de teatro tão integralmente bem ajustada. Não sabia mesmo o que mais admirar ao fechar o velário, se esse magnífico espetáculo de arte elevada e fina, se o milagre desse taumaturgo que conseguiu organizar, no Recife, na patriarcal Recife, esse Teatro de Amadores com simples objetivo artístico e de cultura, com gente da elite social... Quem assistiu a "Primerose" sentiu naturalmente esse banho de beleza espiritual, de elevação, de finura requintada, ao qual não faltou o atiço sal do bom humor, da risada sadia. "Primerose" satisfaz o espectador. O Santa Isabel estava cheio e o espetáculo foi uma surpresa maravilhosa e um êxito incontestável: não um êxito oficial das festas de beneficência, mas o êxito teatral, o triunfo artístico no mais rigoroso confronto com o teatro nacional de profissionais. A obra de Valdemar de Oliveira é obra de bandeirante: é esse o vocábulo que melhor a expressa, porque é ele que melhor define a coragem, a ousadia, o idealismo do desbravador mirífico. Que a bandeira não perca essa flama sagrada que a torna digna do prêmio maior: a admiração do povo culto de nossa terra".
Juanita Machado na Folha da Manhã de 20 de junho de 1941.

"A estréia de Primerose foi mais um acontecimento mundano de finalidade caritativa que mesmo um acontecimento artístico. Pessoas bem intencionadas resolveram, sem levar em conta a falta de tirocínio, viver um drama patético de amor e renúncia para um público premeditadamente inclinado ao aplauso. Geninha Sá tem um talento interpretativo muito natural e espontâneo. O Teatro de Amadores de qualquer forma está, entre nós, muito alem do teatro profissional".
Paulo Couto Malta, Diário de Pernambuco 15 de julho de 1941.

"O Teatro de Amadores, não só aqui como em todo o país, está valendo como uma verdadeira afirmação de que nem tudo está perdido, no Brasil em matéria de arte teatral. O Teatro brasileiro, na verdade, anda a arrastar-se por caminhos que só podem conduzir ao completo abastardamento artístico. Não será possível conciliar a má tendência do público com os legítimos interesses da arte, sem que venha a infalível transigência, por parte de autores e atores, em obediência a conjunturas econômicas. Por isso, o profissionalismo teatral caiu em cheio na baboseira. O resultado tem sido seu crescente desprestigio, cujos índices toda a elite sente e proclama. O Teatro de Amadores, no Recife, é uma das células de resistência a semelhante estado de coisas e seu nobre esforço se dirige, inflexivelmente, no sentido de uma reabilitação da arte teatral, entre nós, e não só dela, mas, necessariamente, também, do próprio bom gosto das platéias, que ainda se atiram a uma " Pensão de Dona Estela" com valente apetite.
Manoel Almeida Morais, no Jornal do Commercio.


Nota: No mesmo ano, mais 3 espetáculos tiveram lugar, no Teatro de Santa Isabel, em benefício da Maternidade do Hospital Pedro II e da Caixa Escolar da Escola Normal Pinto Júnior. Para esses espetáculos ocorreram ligeiras alterações no elenco:
Craveiro Leite no papel de Barão Montureux
Hélio Tavares no papel de Umberto de Plétan
Valter de Oliveira no papel de Conde Plétan
Pinheiro Dias no papel de Fardin
Sra. Pinheiro Dias no da Visconde de Plétan
Denise Albuquerque no de Madame Startini


De ambas instituições beneficiadas, têm os arquivos do TAP cartas de agradecimento. A peça excursionou a Natal e Fortaleza, com o elenco das últimas 3 representações, permanecendo, evidentemente, os demais papeis com os mesmos intérpretes da estréia. A excursão foi patrocinada pelos Governos do Ceara e do Rio Grande do Norte, assim como pelo governo de Pernambuco e pela Prefeitura do Recife. Esses dois últimos cooperaram, financeiramente, nas passagens de ida do conjunto, enquanto os outros governos receberam os elementos do elenco em suas respectivas capitais, considerando-os hóspedes oficiais. O governo do Ceará, ainda ofereceu, ao Teatro de Amadores de Pernambuco, "condução para a volta via terrestre, "em confortáveis "omnibus", contratados para tal fim".

DEPOIMENTOS:
"Raros os que esbanjam tesouros de inteligência, árduo trabalho e dedicação indormida no viso nobre e apostólico de educar, difundir sã alegria, amparar, servir e fazer o bem. O Teatro de Amadores ", de Pernambuco estadeia, em fulcros de imperecível brilho, a prodigalização desses sagrados dons, comprovadores da sobrevivência - mesmo num mundo subvertido - da fonte de eterna bondade que é o coração humano".
Interventor RAFAEL FERNANDES do Rio Grande do Norte.

"O Teatro de Amadores do Recife, soube ser uma prova eloqüente de que, no Brasil, se pode fazer o bom teatro. É uma demonstração de cultura, da inteligência, e da tenacidade dos elementos que a compõe. Bem merecidos e justos foram os aplausos e o apoio que lhe deu o povo cearense".
Interventor Menezes Pimentel do Ceará.

"De mim que tive a ventura de assistir, por duas vezes, ao belíssimo drama "Primerose", direi apenas duas palavras: Esplendido! Obrigado!
Augusto, Arcebispo Primaz.

Nota:
O TAP voltou a encenar "Primerose" em 1944, antes de sua excursão a Bahia. Foi levado à cena, no Teatro de Santa Isabel, em 14 junho de 1944, cujo programa existente, nos arquivos do TAP, nos oferece o seguinte elenco:

Snra. Valter de Oliveira Sra. Champvernier
Dr. Valter de Oliveira Conde Plélan
Snra. Alfredo de Oliveira Sra. Jeanvry
Senhorinha Emilinha Sá Madame Starini
Vicentina do Amaral Bar. de Montureux
Hermilo Borba Filho Barão de Montureux
Alderico Costa Cardeal de Mérance
Adhelmar de Oliveira Denis
Alfredo de Oliveira Visconde de Layrac
Geninha Sá Primerose
Sra. Valdemar de Oliveira Cond. De Sermaize
Otávio da Rosa Borges* Dr. Fardin
Dr. Valdemar de Oliveira Paulo de Lancrey
Snra. Gilberto de Oliveira Donatiana
* Estreando no Teatro de Amadores de Pernambuco.


Nota
:
Posteriormente seguiu para Salvador em julho de 1944, em temporada oficial dos Governos da Bahia e de Pernambuco, no Teatro Guarany. O mesmo elenco do remonte de 1944. Ainda constava como Departamento autônomo do Grupo Gente Nossa.

Em excursões você encontrará outras interessantes informações.

O elenco com Valdemar de Oliveira.
Autor: Robert de Flers e Gaston de Caillavet
Tradutor: Mélo Barreto
Diretor: Valdemar de Oliveira
Estréia: 14 de junho de 1941
Local: Teatro de Santa Isabel
Primeira reunião do T.A.P para
escolha da peça.