<<anterior início próxima>>
Já era pensamento de Valdemar de Oliveira e o seu grupo a montagem de "Oriente e Ocidente". É dele, em seu "A propósito" em 1941: " Depois de Dr. Knock", fizemos, em conjunto, a leitura de diversos originais e escolhemos de início "Oriente e Ocidente", de Somerset Maugham Razões de ordem superior nos fizeram reservar essa grande peça para um dos futuros espetáculos". E esse futuro, depois de 2 anos, chegou. A montagem obedeceu a rigoroso estudo dos personagens e os cenários de Mario Nunes complementaram a atmosfera exigida pelo contexto da obra.

ELENCO:

Hélio Tavares

Gustavo

Emilton Cavalcanti*

Wu

Hermilo Borba Filho

Henrique

Vicentina Freitas do Amaral*

Ama

Valdemar de Oliveira

Jorge

Denise de Albuquerque

Margarida

Adhelmar de Oliveira Li Tai Ching
Maria de Lourdes de Oliveira Lady Stuttfild
Emilinha Sá Silvia
Homens do Povo Bandido
*Estreantes no Teatro de Amadores de Pernambuco

· Registre-se a estréia de Vicentina Freitas do Amaral que veio a se tornar uma das mais importantes estrelas do Teatro de Amadores em memoráveis papeis.


FICHA TÉCNICA:

Cenários:
Mário Nunes
Ponto: Abelardo Cavalcanti ( Coleguinha )
Contra regra: Francisco Miranda
Maquinista: José Barros
Eletricista: Aníbal Mota
Pertences de cena: Baltazar da Câmara
Entidade beneficiada: Maternidade do Hospital Pedro II.


Criticas e comentários:

Jornal do Commercio no dia 7 de abril de 1943 publica:

"Através da tumultuosa história de amor duma mestiça em permanentes vacilações sentimentais por fora dos clamores do seu sangue irrefreável e da mescla tempestuosa dos seus instintos, a peça expõe, desenhada com precisão de minúcias, a figura de Margarida - inundada de inquietação e de tortura, na fatalidade de seu drama racial. Resolver, no particular da interpretação, essa personagem, é a maior dificuldade que a obra de Somerset Maugham estabelece. De parte daquela - mesmo autorizada profissional que se dispuser à enorme responsabilidade - torna-se necessário exuberante força de expressão para impregnar a figura de verdade, transportando os choques contínuos entre as suas emoções para uma fase que os revela sem a "explicação" dos esgares ridículos. Assumindo essa obrigação, a senhorinha Denise Albuquerque não sacrificou o sentido da personagem. Amadora - ainda receando os irrisórios convencionalismos que pretendem colocar entre o lar e o palco a separação dos preconceitos, mas que, em lugar disso, aprofunda mais e mais o abismo da incultura - deixou de empregar a medida do justo calor, quando da exaltação de apaixonada. Na exteriorização do amor sentimento - não ululação possessória da carne - conduziu-se, porem, com propriedade. Valeu por instante de beleza artística a cena da sua escuta à confirmação do amor ressurgido em Jorge - até mesmo pela composição plástica do par. Eloqüentes, também, os seus silêncios, traduzindo as indecisões do seu sangue - que se lhe refletiam com amargura, no coração e na alma de mestiça. Apesar de ser em derredor de Margarida que se localiza a máxima importância interpretativa de "Oriente e Ocidente", não deve passar sem destacado registro a atuação de Vicentina Freitas do Amaral. Foi tão pronunciada a persuasão de sua mímica, que sugeriu legitimidade. E que exatidão nos seus sorrisos típicos - onde pairava o incompreensível do espírito chinês Os seus olhares desvendavam resoluções que as palavras não diziam. Li-Tai-Cheng - a alma asiática rugindo no subterrâneo incêndio do seu ódio contra a proclamada superioridade do branco, que a " situa nas metralhadoras" , com ofensa e desafio à milenária civilização "erigida sob o mérito da sabedoria" - viveu-o o Sr. Adhelmar de Oliveira com tanta exatidão que se afigurava a sua quase ilógica despersonalização no físico e nos sentimentos da personagem criada. Margaria, Ama e Li-Tai-Cheng encontraram seus intérpretes".
LUIZ TEIXEIRA

Ainda no Jornal do Commercio do dia 23 de abril de 1943
"O Teatro de Amadores não é um núcleo de rapazes cabotinos e moças aliteradas, todos mais ou menos risíveis na sua petulância de arrivistas, no seu pernosticismo grânfino, na sua provinciana febre de aparecer e dar na vista, em detrimento da arte e do bom senso. Trata-se, inegavelmente do legítimo pugilo de idealistas, gente que leva para o palco uma emoção de arte séria e desinteressada, uma intenção nobre de servir ao teatro pelo que este encerra de alto e construtivo no terreno da sensibilidade e da beleza.
AUSTRO COSTA (Poeta)


"A peça"Oriente e Ocidente" foi interpretada com um êxito raro. O choque entre suas culturas, entre duas civilizações - oriental e a ocidental - encontrou na peça e nos artistas pernambucanos a mais alta e mais real expressão. Não só os artistas, como os cenários, excederam todas as expectativa... Pernambuco não é só trabalho, esforço de organização, riqueza e ordem. É também cultura e espírito. Há inteligência. Há idealismo. ..As nossas elites não fogem ao seu destino. Não se deixam abater pelo materialismo, pela depressão, pelos sentidos e por tudo que é utilitário e inferior na vida. As nossas elites têm asas. Procuram as alturas. Fogem do chão. O Teatro de Amadores, por exemplo, é uma afirmação de que as elites não desapareceram e que as coisas do espírito ainda enchem a vida de beleza, de renúncia, de exaltação e verdade".
AGAMENON MAGALHÂES

Tradutor: Hermilo Borba Filho
Direção: Valdemar de Oliveira
Estréia: 4 de abril de 1943
Local: Teatro de Santa Isabel
Oriente e Ocidente
De: Somerset Maugham