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Mais um autor brasileiro é levado à cena pelo Teatro de Amadores de Pernambuco, ocasião em que completa o terceiro ano de sua fundação. "A comédia do coração". "Esquisita e deliciosa. Uma peça para ser vista com os olhos d´alma." Assim se expressou, quando da visita do Teatro de Amadores, a Salvador o cronista F.P. em jornal daquela cidade. Realmente uma peça que surpreende o público, acostumado a ver personagens "vivos" em cena, enquanto, diferentemente, em "A comédia do coração" ele vai conhecer sentimentos que convivem no interior de um coração de um alguém que sofre, ama, ri, sonha, tem ódio, ciúme, alegria, medo e guarda, lá no fundo da alma, a esperança. Sentimentos onde a razão é centro de todo o entrecho e que se vê vencida pela paixão, sentimentos esses tão reais nos mistérios que habitam os corações de todos nos.


ELENCO:


Alfredo de Oliveira              

 Sonho

 Denise Albuquerque           

Paixão

 Geninha Sá                          

Alegria

 Dina de Oliveira                  

 Razão

 Adhelmar de Oliveira         

Ódio

 Valter de Oliveira               

Medo

 Maria de Lurdes Oliveira  

Dor

 Alderico Costa                    

Ciúme

*  Maria do Céu Meira       

Desconhecida (Saudade)

* Estreando no Teatro de Amadores de Pernambuco


O espetáculo contou com a orquestra do Maestro Caparros sob regência de Valdemar de Oliveira.
A direção geral da iluminação ficou sob a supervisão de Alexandre Carvalho enquanto Rosa Turkow e Hermilo Borba Filho ficaram encarregados dos serviços interno e externo da eletricidade.
Eletricista:
Aníbal Mota
Contra Regra:
Francisco Miranda
Maquinista:
João Alves e José Barros
Ponto:
Abelardo Cavalcanti
Cenários:
Idealizado pelo diretor Turkof
Entidade beneficiada:
Cruz Vermelha Brasileira




Remonte em 1945 quando da visita de Pascoal Carlos Magno ao Recife, com renda para a Casa do Estudante do Brasil.

Novamente remontada em 1957, com as seguintes alterações no elenco:

Data: 11 de Maio de 1957

Janice Lôbo de Oliveira             

Paixão

 José Maria Marques         

Ciúme

 Herci Lapa de Oliveira

Saudade

Demais papeis com os mesmo da estréia.

Cenário e Figurinos: -
Janice Cantinho Lôbo de Oliveira
Luz e som:
Reinaldo de Oliveira

ALGUNS TRECHOS DE CRÍTICAS E COMENTÁRIOS

"Para os que não acreditam no destino do teatro brasileiro, recomendaria assistir um dos espetáculos do "Teatro de Amadores" que honra Pernambuco e o Brasil. Em "Comédia do coração" - lindamente encenada, iluminada, representada e vestida - lembrei-me daquele conceito de Tains em que afirma ser o teatro um frizo vivo. Se os profissionais tivessem a consciência artística dos Amadores do Recife, que bom seria para o Teatro no Brasil! Valdemar de Oliveira é realmente um animador de heroísmo. Ele e os seus colaboradores merecem o aplauso sincero e a homenagem da mais alta admiração de PASCOAL CARLOS MAGNO.

" Basta esse original para podermos afirmar que já existe um teatro nacional"
Zygmunt Turkof ( Foi o diretor do espetáculo. Polonês de nascimentos, passou muitos anos no Recife, dando aulas de Teatro e encenando peças de autores da comunidade judaica.

Em seu "A propósito" do dia da estréia assim se pronunciou Valdemar de Oliveira

"Vai o Recife, assistir, hoje no Santa Isabel, a uma peça que positivamente se esgotaram as possibilidades técnicas e artísticas do nosso meio teatral. O que se pode conseguir em instalação elétrica suplementar, em artifícios de maquinaria, em jogos de luz e interpretações parte de nossas vocações teatrais - isso foi conseguido, no objetivo de montar, um os mais belos originais teatrais brasileiros - "A Comédia do Coração". Trabalho árduo, que demandou a colaboração de um pessoal especializado e um número de ensaios ainda não alcançado, desde a fundação do Teatro de Amadores. Tem-se a impressão de que este atingiu o seu ponto culminante, pela realização de um espetáculo montado sobre o mais severo critério estético."

Segundo Antônio Edson Cadengue " A comédia do Coração", foi um espetáculo decisivo na vida do Teatro de Amadores, uma vez que trouxe a consciência do trabalho do encenador, à atualização estética e completa mudança de sua visão cênica"

Do cronista Luiz Teixeira.

"O espetáculo ontem apresentado, no Teatro Santa Isabel, pelo Teatro de Amadores, mereceu impreteríveis aplausos.Preliminarmente conquistou a simpatia e o apoio de nossa melhor sociedade - porque se efetivou sob o intuito profundamente patriótico e humanitário de beneficiar monetariamente a Cruz Vermelha Brasileira. Com esse espetáculo, verdadeiramente impressionante, o Teatro de Amadores comemorou o terceiro aniversário de sua frutuosa permanência no âmbito cultural de pernambucano, como expressão de sadios propósitos em proveito do soerguimento da arte cênica nacional, como presença designativa de autorizada oposição ao histrionismo "que pretende fazer dinheiro com a arte sem fazer arte" E representando a peça de Paulo Gonçalves "A comédia do coração" o Teatro de Amadores homenageia a inteligência brasileira, merecida e altamente condicionada no mérito - grande mérito - de poeta e escritor fluminense.

"Redigida com requintada pureza vernácula,"A comédia do coração" é sugestiva fantasia, sem que lhe faltem, todavia, os atributos de obras fundamentalmente teatral. Penetra a totalidade de seus símbolos - contidos nos personagens; nas situações e nas frases de pensamento, sem a rigidez de sentenças - buscadas e compreendidas as intenções do autor - algumas aliviadoras; outras, contundentes - A comédia do coração, vemo-la, de ficção, de extravagância, transmutada na surpreendente realidade das nossas próprias batalhas sentimentais, na autenticidade dos pendores e comportamentos humanos - edificados sobre o enigma de razões psíquicas ou efeitos de causas assencialmente orgânicas. Todo o enredo da peça se desenvolve na interior de um coração - pobre músculo vezes muitas infamado por outros músculos, os verdadeiros culpados, notadamente, nas graves questões do amor (...) a representação da encantadora peça de Paulo Gonçalves, teve a direção geral do ator polonês Sigmunt Turkow". Para que o Teatro fique integrado à legítima situação de Arte tem que contar com a proficiência do diretor. A este pertence a orientação da obra sob todos os seus aspectos: itinerários de ação dos interpretes, preparação da atmosfera cênica e muitos outros fatores inerentes ao particular. Não se colocando acima do autor, do ator, do caracterizador, do cenógrafo, e de vários elementos necessários à sólida execução do Teatro, é, sem dúvida o diretor um dos seus principais colaboradores. Embora sem contar com recursos materiais em paridade ao vulto da tarefa Zgmunt Turkow exibiu-se, em verdade, conhecedor dos complexos delineamentos como das inúmeras minúcias a que se subordina o Teatro. Em especial, no modo de conduzir a interpretação - nada obstante com o auxílio dos amadores por si mesmo capazes - ator Zigmunt Turkow ´produziu o bastante para o realce do seu merecimento artístico. Os efeitos de luz concorreram para a beleza de desenvolvimento da peça "A Comédia do Coração". Enorme é a sugestão da cor sobre a platéia. Sergei Eisentein, famoso diretor russo, com a experiência que lhe confere afirma ser a cor o maior estimulante para as específicas emoções humanas. O espetáculo de ontem, assinalando mais um esplendido sucesso para o Teatro de Amadores, sem provocar imbecis gargalhadas, nem gerar cachoeiras de prantos - os extremos onde alguns, ingenuamente, situam a função do Teatro - foi raro momento de espiritualidade superior,
LUIZ TEIXEIRA em 5 de maio de 1944- Notas de Arte do Jornal do Commercio.

SOBRE O ELENCO:

Hermilo Borba Filho:
"Sonho, Alegria e Paixão tiveram em Alfredo de Oliveira, Geninha Sá e Denise Albuquerque, grandes interpretes. Razão teve, em Diná de Oliveira, uma grande encarnação. Essas figuras - as principais da peça - convenceram e para elas os nossos melhores aplausos pela coerência de atitudes, propriedade de gestos , pela vida que deram aos seus papeis. Como cena isolada vale salientar a da embriagues da Paixão, pela Alegria. Uma grande cena vivida por Denise Albuquerque, tão intensamente, com tanta naturalidade, que a emoção da platéia foi expressa pelas lágrimas e não pelas gargalhadas."

Luiz Teixeira: "É justa saliente referência à interpretação da senhorinha Denise Albuquerque, fazendo a Paixão. Mostrando perfeito entendimento da responsabilidade que lhe fora imposta, a ilustre amadora não desmereceu dos anteriores públicos conceitos que tenho emitido em torno do seu formoso talento. Ardente, imponderada como o caprichoso sentimento, foi, também, excelente quando nas fraquezas e vacilações de seu caráter. A senhora Maria de Lourdes Oliveira - Dor - na simplicidade do olhar, na leve atitude das mãos abastada de emoções, disse o drama do seu destino - predestinação de lágrimas, muitas e muitas não choradas, impressa na face peremptoriamente compreensíveis. A senhora Dr Valdemar de Oliveira, como sempre, com a Razão... Esplendida na exposição do seu valor artístico, na maneira de emitir as palavras e de impor os gestos convincentes. O ponto mais alto da interpretação coube ao Dr.. Alfredo de Oliveira. Foi Sonho. Deu-lhe a distribuição, papel de máxima importância, que não resolvido com domínio, resvalaria para o ridículo. A sua interpretação, vigorosa, contornou a ameaça. Uma Alegria com absoluta propriedade foi a senhorinha Geninha Sá. O Senhor Adhelmar de Oliveira, com figura exclusivamente mímica, mantida para sublinhar instantes cênicos, encarregou-se do Ódio. Fê-lo acertadamente. Medo - parênteses de comicidade, no amontoado de cousas bem dolorosas entregue à meditação da platéia, teve no Dr. Walter de Oliveira realização adequada. Um Ciúme pouco corrosivo, o Sr. Alderico Costa... A senhorinha Maria do Céu Meir, embora pouco aparecendo, em Desconhecida objetivou a asa de dor no pensamento - Saudade - com acerto.

Valdemar de Oliveira em seu "A propósito", de 12 de abril de 1944, assim se refere à direção do futuro espetáculo do TAP:

"Entregue a direção de Zygmunt Turkow, essa providencial figura de homem de teatro, dos mais completos que tenho conhecido - temos, todos, artistas e artífices, amadores e técnicos de nos adaptar à sua compreensão artística, de obedecer às suas ordens - muitas delas verdadeiras inovações na técnica teatral - de atender às suas exigências, exigências de quem muito viu e sabe perfeitamente o que está fazendo. Há, sobretudo um problema que tem absorvido todas as suas atenções. O problema da luz. O Santa Isabel está aparelhado regularmente em outros setores: muitas obras de maquinaria, muitos cenários, de paus, de papel, de cenoplastia, um guarda-roupa e um contra-regra bem provido, jogos de amplificação de voz, bons pianos, palco suplementar, instalações elétricas de boas possibilidades, etc. Faltando-lhe, porem, bons refletores, providos de condensadores, móveis com resistência metálica, etc. E, sem isso, nada feito com "A Comédia do Coração". Mas Turkow não tem recuado nos seus planos de apresentar ao Recife uma demonstração positiva de grande teatro. A ai temos velhos refletores que voltam, remoçados, à ativa, carvões que se substituem por lâmpadas, baterias e transformadores que surgem daqui e dali, mil pequenas coisas que cumpre de providenciar para que o palco receba jatos luminosos e coloridos do alto dos camarotes, de 2a ordem, das frisas laterais, dos urdimentos, da ribalta, de toda a parte, num espetáculo maravilhoso, onde pela primeira vez, no Recife, a luz desempenhará o primeiro papel." .

NA DESPEDIDO DE TURKOW ASSIM SE MANIFESTOU VALDEMAR DE OLIVEIRA.

"O êxito desta peça, Turkow, nos o devemos principalmente a você. A você que se tomou de paixão por ela, acariciando o sonho de monta-la com todo o esplendor, como de fato a montou, apesar do medo enorme que as lâmpadas se queimassem... por tudo isso, pela sua delicadeza de trato, pelo seu valor, é com alegria que lhe prestamos essa homenagem, embora de ciúme, quase de ódio, dos comediantes, que o vão arrastar para longe. E temos bastante razão para nos sentirmos cheios de dor pela sua próxima partida. Quando isso acontecer, havemos de nos lembrar de você com muita saudade - de você que foi a alma, o cérebro e o coração dessa comédia - "A comedia do Coração".

Um registro digno de nota: Cartas do poeta Austro Costa a Valdemar de Oliveira.

"Aqui estou, para o grande abraço, que minha velha e conhecida timidez, não me consentiu lhe dar ontem, nos bastidores do "seu" teatro ! Um grande abraço de emoção agradecido. De encantamento de tudo que de belo, de nobre, de limpo e alto me revelou a brilhantíssima representação dessa grandiosa fèerie de símbolos que é A comédia do Coração" ! Quando, ainda de todo empolgado, fascinado pela estranhíssima beleza do espetáculo, a fui presente, e após ouvi-lo, na saudação a Turkow eu, trêmulo de emoção, me ergui para dizer a v. e todas as demais abelhas dessa felicíssima e luminosa colméia que é o Teatro de Amadores, algumas palavras (...) - eis que o velário correu... correu; mas não abafou a euforia, o estado de êxtase que eu me encontrava. Fora, na rua, aos amigos que encontrei no caminho de casa, fui dizendo o meu entusiasmo dizendo a maravilha d´arte que resulta desde ontem, de interpretação no Teatro Santa Isabel da espiritualíssima peça, desse estranho e enorme "sacrificado de beleza" que foi o grande poeta e teatrólogo de 1830."

Uma nota do Jornal "A folha da manhã"

"É uma peça de elite, para uma platéia também de elite. Pois bem, mesmo sendo assim, o Teatro Santa Isabel ... enchei-se de gente... sem se ver nenhum claro nas localidades do teatro. O Recife, eis então a conclusão a que se pode chegar com segurança, tem gente para os espetáculos selecionados. Não é apenas a praça ideal do teatro chamado para rir."

Outros comentários e críticas ver Excursões a Salvador.

Diretor: Zingmund Turkof
Estréia: 4 de maio de 1944
Local: Teatro de Santa Isabel
Paixão - Sonho e Alegria
Medo e ódio
A Comédia do Coração
De: Paulo Gonçalves
Cenário levado ao Rio de Janeiro
Razão, Ciúme e Saudade
Elenco com o diretor e esposa
Elenco com Pascoal Carlos Magno