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Um dos mais importantes períodos na vida do Teatro de Amadores de Pernambuco. Podemos afirmar ser sido ele o mais rico de todos. Contratado pelo TAP chega ao Recife, no mês de março 1949 o ensaiador Polonês de nome complicado Zbigniew Marian Ziembinski. Veio depois de vários entendimentos com Dr. Valdemar de Oliveira e aqui ficou quase um ano. Teria contratualmente de encenar 3 peças. A primeira escolhida foi "Nossa Cidade" de Thornton Wilder, a segunda "Pais e Filhos" de Bernard Shaw e a última "Esquina Perigosa" de J.B. Priestley. A "sua longa experiência de arte do palco, as suas observações, a sua cultura dramática, enunciando idéias muito próprias e se batendo, principalmente, pela dignidade da arte dramática, pedindo para ele o lugar que ainda não possui, no Brasil" foi amplamente discutida durante as conferências por ele pronunciadas no Círculo Católico para o meio artístico de Pernambuco, logo após a sua chegada. Tudo isso fez crescer ainda mais as enormes perspectivas que o público e todo o meio teatral do Recife aguardava em razão de ter conseguido o Teatro de Amadores de Pernambuco "arrastar" do Sul o maior nome que na época atuava no Teatro Brasileiro. Ali ele havia conseguido revolucionar o meio teatral com a montagem de "Vestido de Noiva" de Nelson Rodrigues, com os Comediantes. Outras montagens também tiveram as mesmas repercussões razão porque a vinda de Ziembinski ao Recife se constituiu num dos maiores feitos que o TAP conseguiu em toda a sua história.
Valdemar de Oliveira se encontrava nas alturas com sua presença no Recife. Sabia o quanto de aproveitamento o meio teatral ganharia e quanto o público poderia se beneficiar com sua passagem entre nós. Não relutou em permitir que ele também emprestasse a sua colaboração como diretor a outros grupos locais. Tudo isso só poderia trazer, como trouxe um resultado excepcional. A escolha de "Nossa Cidade" caia como uma luva nas mãos de Ziembinski. Era tudo que ele poderia desejar para mostrar a sua genialidade como Diretor, "que odeia as indicações e as rubricas dos autores. A seu ver, o poder dos escritores de teatro tem um limite. Não se deve chegar a apontar portas e janelas, entradas por aqui ou saída por acolá, minúcias de montagem e de marcação, sugestões de cenários ou jogos fisionômicos, porque tudo isso lá é alçada do "metteur-em-scèna". Assim é que Ziembinski tem uma parte na criação da peça e isso sem falar na alma que ele transmite aos intérpretes, vestindo-os e movimentado-os como se tivesse cinqüenta anos em Grover´s Corners e soubesse imitar, como ninguém, todo o seu pequeno mundo de boas almas tementes a Deus, e em paz", procurou Valdemar de Oliveira em artigo no jornal delinear algumas das mais fortes características do Diretor. Sobre a peça Antônio Cadengue assim a descreve: "Estreada em 1938, "Nossa Cidade" é uma peça de cenas curtas, fragmentadas (mas, com início, meio e fim), arrastadas por um narrador/diretor de cena. A ação transcorre entre 1901 e 1913. No primeiro ato, o dia-a-dia da cidade e das casas dos Webbs e Gibs; no segundo ato - três anos depois - o casamento de George Gibbs e Emily. (...), Emily morre de parto e, por ter se recusado a aceitar a morte, lhe é permitido voltar à vida, para revivê-la num determinado dia. Ela escolhe o do décimo segundo aniversário e revivendo-o/revendo-o, alcança a compreensão do tempo desperdiçado, da grandeza e da beleza da vida - só agora plenamente conscientizados. (...) Gradativamente, o texto vai deixando de ser uma mera radiografia de uma cidade para refletir sobre a vida e a morte. Embora, por seu sabor nostálgico, possam considerá-la "conservadora", não se pode dizer o mesmo da forma épica pela qual optou Thornton Wilder que, com ela, recebeu seu segundo prêmio Pulitzer". O clima no meio do TAP fez Ziembinski se pronunciar: "Reina ali uma completa disciplina - não imposta, porém sentida e tacitamente compreendida. Cada elemento que recebeu o seu papel cuida dele com um sentimento quase místico, o que em parte me surpreendeu. (...) é uma gente que entusiasma qualquer diretor, porque apesar de amadorista, tem o senso mais profundo de responsabilidade artística; verdadeiro respeito pela arte, encarando o ato de representar, como a coisa mais digna e elevada, que o é, na realidade. (...) E isso poucas vezes se consegue em teatro. Razão porque estou satisfeito com minha estada no Recife, cujo movimento teatral - guardada as devidas proporções - nada fica a dever ao Rio e São Paulo."

ELENCO:

Zbigniew Ziembinski* Diretor de cena
Adhelmar de Oliveira Dr. Gibbs
Alfredo de Oliveira Joe Crowell
Paulo Alcantara (Sebastião Vasconcelos)* Howie Newson
Diná de Oliveira Sra. Gibbs
Vicentina Freitas do Amaral Sra. Webb
Norma Correa Lima* Emily
Lais Macedo Rebecca
Fernando de Oliveira Wally
Oscar Cunha Barreto* Jorge
Otávio da Rosa Borges Dr. Willard
Antônio Brito Miguel O homem da platéia
Geninha Sá da Rosa Borges Mulher da friza
Maria do Carmo Rigueira Costa Mulher da platéia
Alderico Costa Dr. Webb
Valdemar de Oliveira Simon Stinson
Margarida Cardoso Louella Soames
Mário Barros Warren
Hélcio Pires* Si Crowell
Gilvan Barbosa* Um morto
Eduardo Correa Lima* Joe Stoddardt
Reinaldo de Oliveira Sam Craig
* Estreando no Teatro de Amadores de Pernambuco

FICHA TÉCNICA:

Produção:
Teatro de Amadores de Pernambuco


Solenizando a passagem
do 8º aniversário do TAP

CRÍTICAS E COMENTÁRIOS

"NOSSA CIDADE" é uma peça regionalista, que estuda assunto delicado e profundo e só ficaria bem fazendo assim. Para assisti-la é preciso figurá-la, digamos, como se desenrolando no espaço, como estivéssemos igualmente soltos no vácuo e ela se desenvolvesse num palco de nuvens com figurantes etéreos e imponderáveis. Assim é que vimos. E outra não é a impressão causada no espectador atento, evidentemente, com uma boa dose de predisposição à poesia e ao belo"
Júlio Barbosa, no Diário de Pernambuco.

"...os grupos de amadoristas da cidade se constituem verdadeiras escolas dramáticas, com a missão de orientar uma platéia até há bem pouco tempo acostumada apenas a comédias para rir e certos dramalhões de mau gosto.(...) Pode-se discordar de um detalhe ou outro, no entanto a verdade é que, falando em termos de espetáculo, nada foi melhor apresentado até agora no Recife, como transmissão de texto e como aproveitamento científico de todos os valores teatrais: gesto, luz, som, movimentação."
Hermilo Borba Filho

"Ziembinski aproveitou todas as possibilidades arquitetônicas do palco do Teatro Santa Isabel, mesmo as portas dos fundos e suas escadas helicoidais. Durante a representação, os atores tinham entradas pelo poço da orquestra - de um lado ou de outro, pela porta que dá para a escadaria posterior, pelas que dão para os camarins e a contra-regra. Tinham inclusive que descer pelo porão para surgir na orquestra. Como tal operação dispensou o ponto e a contra-regra. Não podia haver. E não houve".
Antônio Cadengue

"Cada amador sabia, perfeitamente, por onde e quando tinha que entrar, do mesmo modo sabendo qual a primeira frase a jogar, e a quem, (...) parecia um mecanismo de relojoaria, tão ajustado e afinado estava. Sem ponto e sem contra-regra, sem corre-corre, tudo a tempo e a hora".
Valdemar de Oliveira

"O primeiro ato é alegre, vivo, grandioso. O segundo comove, entristece. O terceiro faz pensar na transitoriedade efêmera da vida. O terceiro mergulha a assistência na Eternidade. O espectador sai e a cidade de Grover´s Corners no Massachussetts, acompanha-o a casa, vive ainda dois, três dias com ele e depois some-se no inconsciente. Mas na alma fica bem vincada, bem viva a funda pegado do Eterno que vive em todas as vidas.Foi assim que eu vi a peça de Thornton Wilder, numa noite de chuva, no velho Teatro de Santa Isabel.
Carlos Vasconcelos

 

Curiosidade: A peça se apresentou no Teatro de Santa Isabel com o palco totalmente vazio, sem cenário, utilizando alguns adereços como escadas, mesa de passar a ferro, numa concepção de Ziembinski, ensaiador contratado pelo Teatro de Amadores de Pernambuco. Um dos espetáculos mais belos que o Recife já havia visto pela sua grandiosidade e pelo modernismo cênico idealizado pelo ensaiador. Uma enorme repercussão no meio teatral e da crítica do Recife. Como curiosidade houve até um crítico que não compreendendo o vanguardismo de Ziembinski, querendo elogiar o TAP, levantou uma denúncia inusitada: a de que o governo não quis financiar o espetáculo e a direção do Teatro de Amadores demonstrou que poderia levar um espetáculo mesmo sem cenário.

Tradutor: Elsie Lessa
Direção: Zbigniew Ziembinski
Estréia: 27 de Abril de 1949
Local: Teatro de Santa Isabel
Cenário
O casamento
Diná e Vicentina
Ziembinski, Norma e Oscar
Ziembinski - final
Otávio e Zienbinski
Nossa Cidade
De: Thornton Wildler