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Notas no Programa do Espetáculo

Eu estava bastante ligado ao TAP - que vi nascer - e com quem colaborei nos primeiros anos para sentir-me, ao mesmo tempo, honrado e satisfeito em aceitar o convite para dirigi-lo. E quis a fortuna que fosse precisamente com uma peça que há muito tempo desejava encenar, uma obra que é um verdadeiro desafio à argúcia do "Meteur-en-scéne", povoada de problemas de toda a natureza, cativante. A interpenetração dos dois planos, na verdade - o dos atores de uma companhia de ensaios e dos personagens da comédia a ser feita - se desdobra numa variedade de problemas: estéticos, secundários, e ontológicos.
O problema da criação artística é dos temas centrais da peça: o escritor começa a imaginar suas criaturas, dentro de situações, mas logo que elas adquirem vida própria passam a ter exigências, impor sua vontade, a fazer aquilo que bem entendem, terminando inclusive por manobrar aquele que as criou. Estão neste caso o Pai e a Enteada, ao passo que o Filho coloca-se ao lado do autor e declara que não foi feito para figurar ali entre os outros.
Em dado momento, os atores passam a reproduzir a cena que os personagens viveram e a partir de então somos espectadores da ficção histriônica de uma ficção. E então os dois planos - o da ficção sentida como realidade e o da ficção histriônica - juntam-se no palco. E tudo isto porque falta um autor que agrupe a ação, que escreva os diálogos, que dê seqüência lógica ao drama, disto resultando a falsidade de interpretação dos atores quando passam a viver os personagens vivos.
O aparecimento de Madame Paz (em cuja casa de tolerância o Pai encontrou-se com a Enteada) talvez se torne incompreensível à primeira vista, mas deve-se ter em mente que surge pela própria necessidade que têm os personagens de viver uma situação que, sem ela seria impossível. Como diz o Pai: "Por que querem destruir, em nome de uma verdade vulgar, este prodígio de uma realidade que nasce evocada, atraída, formada pela própria cena, e que tem mais direito a viver, aqui, do que vocês?".
A Mãe ignora que é personagem, vivendo "numa continuidade de sentimentos que nunca têm solução e por isto não pode adquirir consciência de sua vida". A Mãe é natureza, como diz Pirandello, enquanto os dois meninos são simplesmente "presença".
Se se abstraem, porém, todos esses problemas, o que resulta é um espetáculo onde as dores se misturam à comicidade, onde os elementos teatrais se valorizam (pelo menos é nossa intenção) para uma boa apresentação, introduzindo o espectador no mundo do jogo dramático. Se conseguirmos ao menos um pouco dessa atmosfera de encantamento nos daremos por bem pagos - eu e os atores - de todas as canseiras, preocupações, tormentos, em que às vezes nos amávamos e outras nos odiávamos, que isto também faz parte do mistério do teatro.
Hermilo Borba Filho.


ELENCO:

Sávio Costa Segundo Ator
Alfredo de Oliveira Maquinista
Porto Carreiro O diretor de cena
Morvile Arruda O galã
Maria de Jesus P. Carreiro A Ingênua
Herci Lapa de Oliveira Segunda Atriz
Estefânia Costa Quarta atriz
Ubirajara Galvão Terceiro ator
Neslon de Sena O ponto
Antônio Brito Primeiro ator
Reinaldo de Oliveira O diretor
Margarida Cardoso Primeira atriz
Zuleide Aureliano Quinta atriz

Pessoal da Comédia a ser feita:

Otavio da Rosa Borges O pai
Janice Cantinho Lôbo de Oliveira A enteada
Geninha Sá da Rosa Borges A mãe
José Maria Marques O filho
Alfredo Sérgio Borba O menino
Liane Borba A menina
Vicentina Freitas do Amaral Madame Paz



FICHA TÉCNICA

Figurinos: Janice Cantinho Lôbo de Oliveira
Programador visula ( Programa): L. Porto Carreiro
Eletricista: Aníbal Mota
Maquinistas: Alceu Domingues Esteves / Aluísio de Santana / Erivaldo Pedro / João e Pascoal
Produção: Teatro de Amadores de Pernambuco


CRÍTICAS E COMENTÁRIOS


Alguns trechos de críticas publicadas
entre 3 a 9 de julho de 1958:

"É um espetáculo que honra e dignifica a arte cênica em Pernambuco. Ele tem tudo aquilo que se pode exigir para uma encenação perfeita."
Adeth Leite

"Representou um acontecimento artístico a estréia de "Seis personagens à procura de um autor" de Luigi Pirandello, pelo Teatro de Amadores de Pernambuco."
Medeiros Cavalcanti

"(Baby, Geninha, Janice, Reinaldo e Zé Maria) dominaram toda a platéia e não tenho lembrança de ter visto, entre boas e grandes companhias profissionais, Procópio, Maria Della Costa, melhor interpretação, decorrente, especificamente, de uma direção artística positivamente brilhante e majestosa."
Aristóteles Trindade

"Seis personagens à procura de um autor" é a melhor peça que o TAP levou em seus dezessete anos de atividade constante. Quem ainda não foi ver, vá, hoje, amanhã, depois, todo o dia até domingo, porque esse conjunto pode ganhar com toda facilidade uma taça do mundo."
Guerra de Holanda

"Desde Vestido de Noiva não nos oferecia o Teatro de Amadores de Pernambuco um espetáculo tão primoroso como o que dá agora com "Seis personagens à procura de um autor."
José Lourênio Mello

Direção: Hermilo Borba Filho
Estréia:
3 de julho de 1958
Local: Teatro de Santa Isabel

Seis Personagens à Procura de um Autor
De: Luigi Pirandello